sábado, 24 de novembro de 2012

Noite terrível - Fernando Pessoa

"Na noite terrível, substância natural de todas as noites, 
Na noite de insônia, substância natural de todas as minhas noites,
Relembro, velando em modorra incômoda,
Relembro o que fiz e o que podia ter feito na vida.
Relembro, e uma angústia
Espalha-se por mim todo como um frio do corpo ou um medo.
O irreparável do meu passado — esse é que é o cadáver!
Todos os outros cadáveres pode ser que sejam ilusão.
Todos os mortos pode ser que sejam vivos noutra parte.
Todos os meus próprios momentos passados pode ser que existam algures,
Na ilusão do espaço e do tempo,
Na falsidade do decorrer.

Mas o que eu não fui, o que eu não fiz, o que nem sequer sonhei;
O que só agora vejo que deveria ter feito,
O que só agora claramente vejo que deveria ter sido —
Isso é que é morto para além de todos os Deuses,
Isso — e foi afinal o melhor de mim — é que nem os Deuses fazem viver...

Se em certa altura
Tivesse voltado para a esquerda em vez de para a direita;
Se em certo momento
Tivesse dito sim em vez de não, ou não em vez de sim;
Se em certa conversa
Tivesse tido as frases que só agora, no meio-sono, elaboro —
Se tudo isso tivesse sido assim,
Seria outro hoje, e talvez o universo inteiro
Seria insensivelmente levado a ser outro também.

Mas não virei para o lado irreparavelmente perdido,
Não virei nem pensei em virar, e só agora o percebo;
Mas não disse não ou não disse sim, e só agora vejo o que não disse;
Mas as frases que faltou dizer nesse momento surgem-me todas,
Claras, inevitáveis, naturais,
A conversa fechada concludentemente,
A matéria toda resolvida...
Mas só agora o que nunca foi, nem será para trás, me dói.

O que falhei deveras não tem esperança nenhuma
Em sistema metafísico nenhum.
Pode ser que para outro mundo eu possa levar o que sonhei,
Mas poderei eu levar para outro mundo o que me esqueci de sonhar?
Esses sim, os sonhos por haver, é que são o cadáver.
Enterro-o no meu coração para sempre, para todo o tempo, para todos os universos,

Nesta noite em que não durmo, e o sossego me cerca
Como uma verdade de que não partilho,
E lá fora o luar, como a esperança que não tenho, é invisível p'ra mim."

Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Que a música seja

Saudade de quando as canções eram só canções. Ás vezes é preciso não esperar nada, não entender nada, somente deixar que a música seja.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Sobre perdas e ganhos

Escolher entre ganhar ou perder, escolha fácil
Ganhar escolhendo perder, difícil escolha
Perda maior é não escolher.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Poesia no vazio

Procurando significado numa vírgula,
encontrando metafísica nas reticências... Poesia no vazio.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

A máquina de fazer felicidade - Fernando Pessoa

Às vezes é realmente mais fácil enxergar o que seria bom para os outros do que para nós mesmos.


"Falas de civilização, e de não dever ser,
Ou de não dever ser assim.
Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos,
Com as cousas humanas postas desta maneira.
Dizes que se fossem diferentes, sofreriam menos.
Dizes que se fossem como tu queres, seria melhor.
Escuto sem te ouvir.
Para que te quereria eu ouvir?
Ouvindo-te nada ficaria sabendo.
Se as cousas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo.
Se as cousas fossem como tu queres, seriam só como tu queres.
Ai de ti e de todos que levam a vida
A querer inventar a máquina de fazer felicidade!"

Alberto Caeiro / Fernando Pessoa


segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Sobre Pontes

Pontes para não cair
Pontes por construir
Inevitáveis se quisermos partir
Inúteis se não queremos ir

Pontes para vir
Pontes para prosseguir
Belas se fomos olhar
Tristes se formos saltar

http://www.youtube.com/watch?v=gWsvmdBKM2k