domingo, 26 de outubro de 2014

nem toda esperança é bonita

Gosto de ir andando até o meu local de votação. Caminhar é bom para refletir. E refletindo sobre o que vi e ouvi hoje e nos últimos dias concluo tristemente que nem toda esperança é bonita. Quando ela é desenhada com desamor, intolerância, desmemória, quando ela exclui do horizonte o outro, nenhum delírio ufanista é capaz de colori-la.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Um pedaço de alma (pretensos fragmentos de livros que não escreverei)

Parece que quando nos dispomos a colar os cacos da alma sempre acaba faltando algum pedaço, quem sabe perdido numa fresta qualquer de sonho inútil.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Esse grande simulacro - Mário Benedetti

"Cada vez que nos dão lições de amnésia
como se nunca houvesse existido
os ardentes olhos da alma
ou os lábios da pena órfã

Cada vez que nos dão aulas de amnésia
e nos obrigam a apagar
a embriaguez do sofrimento
convenço-me de que meu território
não é a ribalta de outros

Em meu território há martírios de ausência
resíduos de sucessos / subúrbios enlutados
mas também singelezas de rosa
pianos que arrancam lágrimas

cadáveres que ainda olham de seus hortos
lembranças imóveis em um poço de colheitas
sentimentos insuportavelmente atuais
que se negam a morrer no escuro

O esquecimento está tão cheio de memória
que às vezes não cabem as lembranças
e rancores precisam ser jogados pela borda
no fundo o esquecimento é um grande simulacro

Ninguém sabe nem pode /ainda que queira /esquecer
um grande simulacro abarrotado de fantasmas
esses romeiros que peregrinam pelo esquecimento
como se fosse o caminho de Santiago

O dia ou a noite em que o esquecimento estale
exploda em pedaços ou crepite /
as lembranças atrozes e as de maravilhamento
quebrarão as trancas de fogo
arrastarão afinal a verdade pelo mundo
e essa verdade será a de que não há esquecimento."

Mário Benedetti, poema "Ese Gran Simulacro" tradução de Dalila Teles Veras

terça-feira, 8 de abril de 2014

A dor de Leminski (pretensos fragmentos de livros que não escreverei)

No fundo sentia certo orgulho em sofrer. Não era algo que lhe causasse prazer, mas lhe parecia uma forma digna de sentir-se vivo. Fossem os motivos nobres ou não... Era como se o sofrimento, por si só, pudesse extirpar qualquer resquício de vileza, egoísmo ou erro. Nessas horas entendia bem Leminski: a dor era capaz de nos tornar elegantes.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Possuir é perder - Fernando Pessoa

"A arte livra-nos ilusoriamente da sordidez de sermos. Enquanto sentimos os males e as injúrias de Hamlet, príncipe da Dinamarca. não sentimos os nossos - vis porque são nossos e vis porque são vis.
O amor, o sono, as drogas e intoxicantes, são formas elementares de arte, ou antes, de produzir o mesmo efeito que ela. Mas, amor, sono e drogas tem cada um a sua desilusão. O amor farta ou desilude. Do sono desperta-se, e, quando se dormiu, não se viveu. As drogas pagam-se com a ruína de aquele mesmo físico que serviram de estimular. Mas na arte não há desilusão porque a ilusão foi admitida desde o princípio. Da arte não há despertar, porque nela não dormimos, embora sonhássemos. Na arte não há tributo ou multa que paguemos por ter gozado dela. O prazer que ela nos oferece, como em certo modo não é nosso, não temos nós que pagá-lo ou que arrepender-nos dele.

Por arte entende-se tudo o que nos delicia sem que seja nosso - o rasto da passagem, o sorriso dado a outrem, o poente, o poema, o universo objectivo. Possuir é perder. Sentir sem possuir é guardar, porque é extrair de uma coisa a sua essência. Não me indigno, porque a indignação é para os fortes; não me resigno, porque a resignação é para os nobres; não me calo, porque sou artista, entretenho-me a tecer musicais as minhas queixas e a arranjar meus sonhos conforme me parece melhor a minha ideia de os achar belos. Só lamento o não ser criança, para que pudesse crer nos meus sonhos..."

Bernardo Soares/Fernando Pessoa em “O Livro do Desassossego”

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Para rimar



Me deram pontes para nenhum lugar
Me deram asas, não sei voar
Me deram olhos...o que faço com um olhar?
Rimas pobres para mirar

sábado, 25 de janeiro de 2014

Sentipensar II - Milan Kundera



“Tenho sempre diante dos olhos Tereza sentada sobre um tronco, acariciando a cabeça Karenin, e pensando no desvio da humanidade. Ao mesmo tempo, surge para mim uma outra imagem: Nietzsche esta saindo de um hotel em Turim. Vê diante de si um cavalo, e um cocheiro espancando-o com um chicote. Nietzsche se aproxima do cavalo, abraça-lhe o pescoço, e sob o olhar do cocheiro, explode em soluços. Isso aconteceu em 1889, e Nietzsche já estava também distanciado dos homens. Em outras palavras: foi precisamente nesse momento que se declarou sua doença mental. Mas, para mim, e justamente isso que confere ao gesto seu sentido profundo. Nietzsche veio pedir ao cavalo perdão por Descartes. Sua loucura (portanto seu divorcio da humanidade) começa no instante em que chora sobre o cavalo. E este Nietzsche que amo, da mesma forma que amo Tereza, acariciando em seus joelhos a cabeça de um cachorro mortalmente doente. Vejo-os lado a lado: os dois se afastam do caminho no qual a humanidade, senhora e proprietária da natureza, prossegue sua marcha para a frente.”


Milan Kundera em "A Insustentável Leveza do Ser”

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Sentipensar - Eduardo Galeano




"Para que a gente escreve, se não é para juntar nossos pedacinhos? Desde que entramos na escola ou na igreja, a educação nos esquarteja: nos ensina a divorciar a alma do corpo e a razão do coração.

Sábios doutores de Ética e Moral serão os pescadores das costas colombianas, que inventaram a palavra sentipensador para definir a linguagem que diz a verdade. "

Celebração de bodas da razão com o coração - Eduardo Galeano em “O Livro dos abraços”.

domingo, 12 de janeiro de 2014

Razão X Vontade - Dostoiévski

"...a razão é uma coisa boa, sem dúvida, mas razão é apenas razão e satisfaz apenas a capacidade racional do homem; já a vontade, esta é a manifestação da vida como um todo, ou melhor, de toda a vida humana, aí incluindo-se a razão e todas as formas de se coçar."
(...)
"Eu, por exemplo, naturalmente quero viver para satisfazer toda a minha capacidade de vida e não para satisfazer apenas minha capacidade racional, ou seja, talvez a vigésima parte de toda a minha capacidade de viver."

Notas de Subsolo, Fiódor Dostoiévski

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Letra: Ferida Exposta ao Tempo - Affonso Romano de Sant’Anna

"É forçoso dizer que me faz falta
o poema que existe e nunca li,
como se alhures
brotassem coisas que não vi
e que distantes,
carentes,
dependessem de mim.
Algo como se o intocado fosse a sinfonia
inacabada; mais: rasgada
como o quadro nunca esboçado, perdido
na abatida mão do artista.
O ausente
é uma planta
que na distância se arvora
e é tão presente
quando o passado que aflora.
E a literatura, mais que avenida ou praça
por onde cavalga a glória, é um monumento,
sim, de dúbia estória: granito e rima.
Alegorias ao vento, lugar onde carentes
e arrogantes
cravamos nosso nome de turista:
-estive aqui, desamado,
riscando a pedra e o tempo
expondo meu nome e sangue
com o coração trespassado."

Affonso Romano de Sant’Anna