Sempre que tomamos uma decisão, sempre que uma força vence em nós para que escolhamos algo, sempre que este algo escolhido faz parte de nosso presente, aquelas outras inclinações contrárias ou distintas que também existiam na época da escolha voltam a cantar sedutoramente a hipótese de outra vida. Cada decisão que tomamos, mínimas que sejam, implicam também em vontades que foram mais fracas e derrotadas, mas não eliminadas. Elas ficam lá, esperando a oportunidade de se vingar dizendo-lhe à alma: "se você tivesse concordado comigo não seria assim." Mas isso me parece pura trapaça do intelecto, esse órgão pretensioso que não cansa de querer nos convencer que seria possível controlar as inúmeras pulsões e contingências externas e internas que nos atravessam a todo momento e influenciam nossas escolhas.
Há sempre um quê de injustiça conosco quando olhamos para o passado imaginando o que poderia ter sido.